Sarau em Três Pontas celebra Bituca com Telo Borges e gerações de talentos
Casa da Cultura ficou lotada em homenagem aos 84 anos de Milton Nascimento
Havia quem levasse um banquinho de casa e quem encontrasse lugar nas escadarias. No quintal da Casa da Cultura Alfredo Benassi, em Três Pontas, crianças, adolescentes, jovens, idosos se acomodaram para celebrar Milton Nascimento. Na noite de quarta-feira (28), o Sarau “Nos Bailes da Vida em Três Pontas: 84 anos de Bituca” reuniu música, literatura e lembranças que aproximaram diferentes gerações.
As cadeiras disponibilizadas pela organização não foram suficientes para tanta gente. Familiares do homenageado, como as irmãs Beth e Jaceline, a Jajá, acompanharam as apresentações ao lado de fãs, músicos e parentes dos artistas que passaram pelo palco. Fitas coloridas e flâmulas estampadas com diferentes fases da trajetória do cantor e compositor ornamentaram o espaço, no Centro da cidade.

Realizado pela Secretaria Municipal de Cultura, Lazer e Turismo (Secult-TP), o encontro marcou o retorno do Sarau à programação cultural trespontana. A apresentação ficou a cargo de Marita Duarte, que também conhece de perto a história de Bituca e do Clube da Esquina. O ator Glauber Reis, fundador do Grupo de Teatro Arte e Manha – outro motivo de orgulho para a cidade – e integrante da Secult-TP, realizou intervenções que somaram expressão cênica à homenagem.


Uma cidade que também é sua
Convidado especial, Telo Borges veio de Belo Horizonte para cantar sucessos e compartilhar histórias. Coube a ele abrir e encerrar a noite. Antes de retornar ao palco do quintal, recebeu o SintonizeAqui em uma sala da Casa da Cultura, com carinho e aquela simpatia mineira que deixa a conversa à vontade.
Irmão de Lô e Márcio Borges, Telo cresceu próximo dos músicos do Clube da Esquina e construiu sua própria trajetória como compositor e instrumentista. É dele, em parceria com Márcio, entre outras marcantes canções, “Vento de Maio”, gravada por Lô Borges e também por Elis Regina. Sua história musical se mistura à convivência com a família e com os artistas que fizeram daquele encontro de amizades uma referência da música brasileira.

A ligação com Três Pontas começou ainda na infância, nas viagens com Milton. Desde então, a cidade se tornou um lugar de reencontros e de afeto. “É sempre uma alegria estar em Três Pontas”, afirmou.
Desta vez, porém, a celebração trouxe sentimentos difíceis de separar. A poucos dias de completar um ano da morte de Lô Borges, em 2 de novembro, Telo falou da saudade do irmão, presença decisiva em sua formação musical, e compartilhou sua preocupação com a saúde de Bituca. “Além de meu irmão, era meu pai musical. O cara que me colocou na vida de músico”, disse sobre Lô.
O acolhimento recebido dos trespontanos ajuda a atravessar essas emoções, contou Telo. “O respeito, os olhares que eu ganho aqui, eles são cativantes e me incentivam”, disse, com firmeza na voz e suavidade no tom.

Histórias de um show que ninguém queria encerrar
Das muitas passagens pela cidade, Telo guarda uma lembrança especialmente divertida: as apresentações na Buxarella, famoso bar na praça, que se estendiam madrugada adentro porque o público insistia em pedir mais. “Eu cantava, assim, 40, 50 músicas”, recordou.
Em uma dessas ocasiões, já por volta das quatro da manhã, o cansaço venceu. O músico encerrou a apresentação e se sentou para descansar. Pouco depois, o proprietário do estabelecimento, Paulo Buxa, se aproximou com um recado: o pessoal estava reclamando que o intervalo estava longo. “Não é intervalo, não, acabou, não aguento mais”, respondeu Telo, em um episódio que permanece vivo em sua memória.
Segundo ele, Lô também cultivava um carinho especial por Três Pontas. Os dois começaram a frequentar o município acompanhando Milton, mas a amizade com os moradores criou seus próprios caminhos. Houve ocasião, relatou, em que Bituca seguiu viagem para outros compromissos e Lô permaneceu por aqui, tamanho o gosto pela cidade e por sua gente.

Obra que chega aos mais novos
Na quarta-feira, essa história encontrou continuidade nas vozes de jovens que interpretaram o repertório de Milton. Para Telo, o Sarau em Três Pontas também tem uma dimensão educativa: permite conhecer a música brasileira por meio de sua execução, da escuta e da convivência com quem participa dessa trajetória.
Ver a juventude cantando Bituca, observou, tem um significado especial em um país onde nem sempre esse repertório encontra espaço. A exigência das composições acrescenta valor à dedicação dos intérpretes. “É um legado e uma marca, e eu não poderia esperar outra coisa da cidade do Milton”, declarou.
Aos que começam a descobrir seus caminhos na arte, o compositor deixou um conselho concreto: ouvir, pesquisar, estudar e experimentar as canções no instrumento. “Vamos ouvir a obra de Milton, a obra do Clube da Esquina. Vamos pesquisar, vamos estudar, vamos tirar essa obra, seja no piano, seja no violão. É isso que vai forjar o talento de vocês”, orientou.
A recomendação nasce da própria experiência. Conforme explicou, a formação de um compositor também passa pelo que ele escuta e pelas referências que aprende a reconhecer. “O Bituca ouviu muita coisa pra se tornar o Milton. O Lô ouviu muita coisa. Eu ouvi muita coisa pra poder ser um compositor”, finalizou o convidado de honra.

Retorno de um encontro
À frente da equipe responsável pela organização, o secretário municipal de Cultura, Lazer e Turismo, Sérgio Vitor Nogueira, agradeceu aos artistas que deram som e voz à homenagem, a Telo Borges e ao público que lotou o quintal do prédio tombado como patrimônio histórico.
De acordo com o secretário, a Casa da Cultura deverá receber em breve uma Roda de Samba, já dentro das festividades da Consciência Negra. Posteriormente, a proposta é realizar o Sarau mensalmente, recuperando a frequência de um encontro que faz parte da memória artística de Três Pontas.

A noite mostrou o quanto esse espaço permanece querido. Houve tempo para conhecer talentos, reencontrar pessoas e ouvir episódios que ajudam a compreender a dimensão humana de Milton Nascimento.
Foi uma noite serena, deliciosa de acompanhar, com recordações para quem conhece de perto sua vida e sua obra e descobertas para os mais novos. O menino que chegou a Três Pontas já acolhido no amor de dona Lilia e “seu” Josino, continua despertando curiosidade, admiração e vontade de cantar.






Sarau em Três Pontas – Alguns dos artistas trespontanos que levaram suas vozes e interpretações ao palco do quintal da Casa da Cultura, celebrando a obra e a vida de Milton Nascimento
Semana Cultural segue com Amanda Rissi
O Sarau foi a segunda atividade da Semana Cultural de Três Pontas 2026, promovida pela Prefeitura por meio da Secult-TP. A abertura aconteceu na manhã de segunda-feira (26), com uma celebração que reuniu alunos do Conservatório Municipal de Música Gileno Tiso e da Escola Municipal Cônego Vitor, integrantes da Corporação Musical Luiz Antônio Ribeiro e da Banda da Apae.
Um dos momentos especiais foi a execução de “Maria, Maria”, acompanhada pelos sinos do Santuário Diocesano Nossa Senhora d’Ajuda. A Corporação também participou dos parabéns para Milton e encerrou sua apresentação com o Hino de Três Pontas.
Nesta quinta-feira (29), às 20 horas, a programação continua com um show gratuito de Amanda Rissi no Sambódromo Professor Jaime de Abreu, na Avenida Oswaldo Cruz. Vencedora do “É Pra Cantar” 2026, concurso da EPTV dedicado a revelar talentos da música sertaneja, a trespontana se apresentou na Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos em 21 de agosto. Agora, fará uma apresentação especial para os conterrâneos.
A agenda inclui ainda o 2º Encontro de Motociclistas, também no Sambódromo, com shows de rock e outras atrações de sexta-feira (30) a segunda (2). No distrito do Pontalete, o Brazil Cup terá campeonato de jet ski, apresentações de paramotor, flyboard, freestyle, moto show e bandas, também de sexta-feira até segunda-feira (2), feriado de Finados.
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