Trespontana Júlia Dare Andrade conquista ouro, cinco pratas e recorde brasileiro na natação paralímpica
Com apenas 19 anos, a jovem coleciona conquistas nacionais e alimenta o sonho de representar o Brasil nos Jogos Paralímpicos
Aos 19 anos, a trespontana Júlia Dare Andrade já sabe que a realização de um sonho exige coragem para enfrentar desafios, disciplina para seguir adiante e pessoas dispostas a caminhar ao seu lado. Foi assim que a jovem, que começou a praticar natação por recomendação médica, encontrou nas piscinas um caminho que mudaria sua vida. Hoje, com medalhas conquistadas em competições nacionais, ela segue determinada a alcançar um objetivo ainda maior: representar o Brasil nos Jogos Paralímpicos.
O capítulo mais recente dessa trajetória foi escrito em São Paulo, nos dias 16 e 17 de outubro, durante o Campeonato Brasileiro Loterias Caixa de Jovens de Natação Paralímpica. Júlia conquistou seis medalhas, sendo uma de ouro e cinco de prata, além de estabelecer um novo recorde brasileiro nos 100 metros Borboleta, conforme informações repassadas pela própria atleta.
Realizada no Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro, a competição reuniu 270 nadadores de diferentes regiões do país, distribuídos nas categorias sub-17, sub-19 e sub-21. Organizado pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), o campeonato é uma importante oportunidade para revelar talentos, acompanhar o desenvolvimento de jovens esportistas e identificar nomes com potencial para integrar futuras seleções nacionais.
Entre tantos competidores, a jovem de Três Pontas voltou para casa com resultados que refletem anos de preparação, renúncias e perseverança. Cada conquista carrega uma história que começou longe dos grandes centros esportivos, quando a preocupação era simplesmente encontrar uma atividade que ajudasse a melhorar sua qualidade de vida.

Da recomendação médica às competições nacionais
Júlia tinha aproximadamente 13 anos quando começou a nadar, em razão da asma. A atividade, inicialmente procurada para contribuir com sua saúde e seu bem-estar, despertou um interesse que cresceu com o passar do tempo. Aos 14, ingressou em uma equipe de alto rendimento em Varginha, onde passou a se dedicar à modalidade com maior intensidade.
A experiência revelou uma vocação e abriu espaço para novas possibilidades. Aos 15 anos, a adolescente participou de uma avaliação em um clube, foi aprovada e tomou uma decisão importante: deixar Três Pontas e mudar-se para Belo Horizonte para investir na carreira esportiva.
A mudança exigiu adaptação a uma nova cidade, a uma rotina de treinamentos e às responsabilidades que acompanham a preparação de uma atleta. Sua mãe passou a morar com ela na capital mineira, oferecendo o suporte familiar necessário para que pudesse continuar perseguindo seus objetivos.
Foi também nesse período que Júlia conheceu a natação paralímpica e descobriu que possui deficiência intelectual leve, decorrente de complicações provocadas por um engasgo quando tinha apenas 15 dias de vida.
A descoberta trouxe uma nova compreensão sobre sua própria história e permitiu que encontrasse oportunidades no paradesporto. O que poderia representar uma dificuldade tornou-se parte de um percurso de aprendizado, amadurecimento e conquistas.
Preparação, oportunidades, reconhecimento
Atualmente, Júlia representa a AM Paradesporto/Naurú, parceria ligada à Associação Mineira do Paradesporto, de Belo Horizonte, e à Naurú, organização voltada ao desenvolvimento do esporte paralímpico.
A Naurú foi criada pela atleta Verônica Hipólito, campeã mundial e multimedalhista paraolímpica, e atua na formação e no fortalecimento de competidores em diferentes regiões brasileiras. A parceria com a AM Paradesporto integra essa estrutura de incentivo ao alto rendimento. Em setembro deste ano, por exemplo, a equipe AM Paradesporto/Naurú conquistou 12 medalhas na segunda fase nacional de natação, sendo seis de ouro, três de prata e três de bronze.
A evolução de Júlia também já lhe proporcionou uma experiência especial: integrar atividades de preparação da Seleção Brasileira de jovens da natação paralímpica. Seu nome consta entre os convocados pelo CPB para um período de treinamentos no Centro de Treinamento Paralímpico, em São Paulo, em 2026.
A programação reuniu nadadores promissores e incluiu avaliações físicas e técnicas, atividades na piscina, musculação e acompanhamento especializado, com foco no aperfeiçoamento dos atletas e na preparação para competições internacionais.
Essas são oportunidades que ajudam a construir uma carreira e demonstram como o acesso a equipes estruturadas, profissionais capacitados e competições de alto nível pode fazer diferença na vida de jovens talentos.
Família: parte de cada conquista
Por trás dos resultados obtidos nas piscinas, existe uma rede de apoio que Júlia considera essencial. “Minha família, meu namorado e minha própria vontade de chegar a uma Paralimpíada são minhas principais fontes de incentivo”, revela.
O envolvimento familiar tem um significado especial nessa caminhada. A presença da mãe, por exemplo, faz parte de sua rotina, acompanhando de perto uma escolha que começou ainda na adolescência. O apoio de quem acredita no potencial de um jovem pode ser decisivo, especialmente quando o sonho exige mudanças, dedicação diária e disposição para enfrentar as incertezas de uma carreira esportiva.
A história de Júlia também chama a atenção para a importância do incentivo ao esporte desde cedo. A prática de atividades físicas contribui para a saúde, favorece a convivência social, estimula a autonomia e desenvolve valores como responsabilidade, respeito e persistência.
No caso da trespontana, a natação trouxe benefícios que ultrapassaram a condição de saúde que motivou suas primeiras aulas. Ela encontrou uma paixão, construiu amizades, conheceu novos lugares e passou a enxergar possibilidades para o futuro que talvez nem imaginasse quando entrou pela primeira vez em uma piscina.

O sonho continua…
Depois do excelente desempenho no Campeonato Brasileiro de Jovens, Júlia já concentra suas atenções no próximo desafio. Entre os dias 7 e 9 de dezembro, está prevista sua participação no Campeonato Brasileiro de Natação Paralímpica, novamente em São Paulo, conforme o calendário oficial do CPB. A expectativa é melhorar suas marcas, conquistar novos resultados e continuar avançando no cenário nacional.
Para a jovem que saiu de Três Pontas aos 15 anos, cada competição representa uma oportunidade de aprendizado e de aproximação do maior objetivo de sua carreira. Chegar aos Jogos Paralímpicos é uma meta ambiciosa, que exige preparação contínua e resultados expressivos, mas que encontra sustentação na determinação demonstrada ao longo dos últimos anos.
Sua trajetória também deixa uma mensagem importante a outros jovens, especialmente àqueles que encontram dificuldades para desenvolver seus talentos: sonhos precisam de oportunidades, incentivo e perseverança para ganhar forma.
Júlia ainda tem muitos desafios pela frente. Aos 19 anos, carrega a experiência de quem precisou fazer escolhas importantes cedo e a disposição de continuar aprendendo. As medalhas conquistadas em São Paulo são motivo de orgulho para sua família e para Três Pontas, cidade onde nasceu e deu os primeiros passos de uma história que agora ganha reconhecimento nacional.
Enquanto novos resultados são construídos a cada treinamento, ela mantém os olhos voltados para o futuro, afinal, foi acreditando em suas possibilidades que aquela menina, que começou a nadar para cuidar da saúde, descobriu até onde seus sonhos poderiam levá-la.
Para encerrar, Júlia faz questão de expressar sua gratidão. “Através da minha mãe, Rosimeire, e do meu pai, Genivaldo, quero agradecer a toda a minha família e às pessoas que torcem por mim, acreditam no meu potencial e me incentivam a continuar lutando pelos meus objetivos”.
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