Festival Música do Mundo: uma travessia por Três Pontas

Eu fui… descobri mais sobre Milton Nascimento e Wagner Tiso; acompanhei de perto a programação que espalhou arte, literatura e música; descobri a cidade

Há exatamente uma semana, cheguei a Três Pontas. Era manhã de sexta-feira, 14 de agosto, e estava acompanhada de uma amiga. Era minha primeira vez na cidade e, embora eu ainda conhecesse pouco das ruas, já trazia algumas referências que me fizeram querer estar ali: Milton Nascimento, Wagner Tiso e a história daquele encontro musical que colocou uma pequena cidade do Sul de Minas no mapa cultural brasileiro.

Eu sabia que Três Pontas era terra de café, de fé e de grandes músicos. Sabia também que, em 1977, as colinas do município receberam o histórico Show do Paraíso, lembrado como o “Woodstock Mineiro”, quando milhares de pessoas vieram para assistir a nomes importantes da música brasileira. O que eu não imaginava era que, décadas depois, seria possível chegar à cidade justamente durante uma nova travessia musical.

E foi assim que começou minha experiência no Festival Música do Mundo – A Travessia Continua. O evento voltou a Três Pontas depois de dez anos e, em 2026, ocupou diferentes espaços do município com música, literatura, gastronomia, atividades culturais, ações formativas e encontros. A programação principal ficou concentrada no sábado (15), no Aeroporto Leda Mello de Resende, mas a proposta do Festival estava muito além daquele palco.

Três Pontas conta sua história enquanto a gente caminha

Naquela sexta-feira, bastava andar um pouco para perceber que a programação havia se espalhado pela cidade. Logo pela manhã, o cortejo da Fanfarra da Escola Jacy Gazola saiu da Praça Cônego Victor em direção à Praça Travessia. Acompanhei o desfile e me surpreendi com a performance dos alunos, debaixo de sol escaldante. Fui até à famosa Praça e mais uma vez fiquei admirada ao ver, na varanda da casa da família de Milton, pessoas vibrando, aplaudindo enquanto a banda tocava uma das canções do artista, um hino à ancestralidade: “Raça”. Soube depois que lá estavam, empolgadas com a homenagem, duas irmãs e uma prima de primeiro grau do “Bituca”. Sensacional!

Festival Música do Mundo nas ruas de Três Pontas – Fanfarra da Escola Estadual Prefeito Jacy Junqueira Gazola desfila pelo Centro da cidade e toca “Raça” em frente à casa da família de Milton Nascimento, na Praça Travessia (Crédito: SintonizeAqui)

(Crédito: Vanusa Campos – Festival Música do Mundo)

Mais tarde, acompanhei também de perto a Banda da Apae. Para quem chegava de fora, como eu, aquilo funcionava quase como uma apresentação de boas-vindas: Três Pontas não estava esperando que a gente chegasse ao Festival. A cidade inteira parecia ter decidido participar dele.

Caminhei pelo centro observando vitrines, pessoas circulando e o movimento diferente de um fim de semana comum. Havia uma sensação curiosa de cidade pequena recebendo gente de fora sem deixar de ser ela mesma. Foi também quando comecei a entender que o Festival Música do Mundo não queria apenas apresentar artistas. Queria contar uma nova história.

Segui o bate-papo literário sobre a vida e a obra de Milton Nascimento. Maria Dolores, autora de “Travessia – a vida de Milton Nascimento”, João Marcos Veiga e Vilma Nascimento, autores de “De Onde Vem Essa Força: histórias da família Nascimento de Minas para o mundo”, e a ilustradora Ingrid Macieira participaram da conversa.

Para mim, foi uma das experiências mais interessantes daquela viagem. Eu havia chegado querendo conhecer a cidade de Milton Nascimento. Naquele momento, comecei a conhecer também o homem por trás do nome que eu já conhecia da música brasileira.

Festival Música do Mundo: uma travessia por Três Pontas
Maria Dolores, Ingrid Macieira, Vilma Nascimento e João Marcos Veiga no Bate-papo Literário (Crédito: Vanusa Campos – Festival Música do Mundo)

Wagner, presente!

No fim da tarde, fomos ao Cemitério Municipal. Sim, ao cemitério, onde aconteceu a Serenata dos Tiso, desta vez com a participação do Wagner.

Talvez para quem mora em Três Pontas seja difícil perceber o quanto aquele lugar pode surpreender. Para mim, era uma cena que eu não esperava encontrar em um festival de música: um cemitério transformado em espaço de memória, de encontro e de canções.

A Serenata dos Tiso é uma tradição antiga da cidade, ligada à família do maestro Wagner Tiso. A participação dele naquela sexta-feira acrescentou um significado especial à programação de retorno do Festival. A própria imprensa nacional destacou a Serenata e a presença de Wagner entre os momentos simbólicos desta edição. E, gente, de verdade, a Serenata é simplesmente encantadora.

A noite continuou nos bares. No Circuito Musical teve roda de samba, pop, rock, soul, bossa, teve MPB, teve até o cativante Chico Chico dando “uma canja” em um dos espaços que receberam a programação especial.

Nós passamos rapidamente por alguns desses lugares e percebemos outra característica interessante do Festival: não era necessário estar diante de um grande palco para sentir que algo estava acontecendo. A música estava nas esquinas, nos bares, nas conversas, nas mesas.

Festival Música do Mundo: uma travessia por Três Pontas
Serenata dos Tiso – evento levou música e emoção ao Cemitério Municipal de Três Pontas e a presença do maestro Wagner Tiso foi um dos momentos mais simbólicos desta edição (Crédito: Vanusa Campos – Festival Música do Mundo)

Sábado: a travessia chega ao Aeroporto

O sábado amanheceu diferente. Pela manhã, a cidade ainda tinha programação gratuita. Crianças participaram das atividades do Festival, enquanto outro cortejo, desta vez com a Fanfarra do Colégio Travessia, seguia da Praça Cônego Victor até a Praça Travessia.

À tarde, fomos para o Aeroporto. Era ali que aconteceria a principal noite do Festival Música do Mundo. A programação desfilou por Saideira Tributo Skank, Beto Guedes, Chico Chico, Ânima Minas – em homenagem a Milton Nascimento – e Nando Reis.

Festival Música do Mundo: uma travessia por Três Pontas
No palco, grandes músicos, de renome nacional, também participaram da “Travessia”: Saideira Tributo Skank, Beto Guedes, Chico Chico, Ânima Minas em homenagem a Milton Nascimento, e Nando Reis

Então, percebi que não tinha vindo a Três Pontas apenas para assistir aos shows. E talvez por isso a experiência tenha sido tão completa. Eu já havia passado pelas ruas, escutado histórias, conhecido livros, visto uma fanfarra, entrado em bares e estado diante da casa de Milton e do túmulo da família Tiso. Quando cheguei ao Aeroporto, tudo aquilo parecia fazer parte da mesma narrativa. O palco reunia artistas de diferentes gerações, enquanto, ao redor, estava uma cidade cuja identidade musical não começou naquele fim de semana e certamente não terminaria quando as luzes fossem apagadas.

Sem palavras para descrever o que vi, o que ouvi, o que senti…

Que pôr do sol!

Entre uma atração e outra, houve um momento em que eu simplesmente parei para olhar para trás do palco. O sol começava a baixar e deixava a cena ainda mais bonita. Um astro descendo ao fundo, tendo como moldura um cenário que fazia referência à serra que dá nome ao município. Foi uma daquelas imagens que não precisam de explicação.

Eu havia chegado ali sabendo que Três Pontas era a terra de Milton Nascimento e Wagner Tiso. Naquele instante, comecei a compreender que a paisagem também fazia parte dessa história. A montanha tão bem representada, o céu, o palco e a música formavam uma imagem difícil de esquecer.

Pôr do sol no Aeroporto da cidade: “… foi uma daquelas imagens que não precisam de explicação” (Crédito: Vanusa Campos – Festival Música do Mundo)

Que recepção!

Ao longo daqueles dois dias, uma coisa também chamou minha atenção: a organização. Eu já havia participado de outros eventos, mas gostei particularmente de perceber que o Festival Música do Mundo não ficou restrito ao espaço dos shows principais. A programação ocupou praças, bares, espaços culturais e outros pontos de Três Pontas, criando oportunidades para que moradores e visitantes participassem de maneiras diferentes. A maior parte das atividades foi gratuita, enquanto os shows do palco principal, no sábado, tiveram cobrança de ingresso e, confesso, valeu cada centavo!

Também ficou evidente que um evento desse tamanho movimenta muito mais do que a música. Hotéis, casas, restaurantes, bares, comércio e serviços receberam visitantes durante os dias do Festival. Antes mesmo do início da programação, a rede de hospedagem da cidade já registrava procura elevada, com estabelecimentos trabalhando com listas de espera.

Para quem chega de fora, isso também faz parte da experiência. A gente conhece um restaurante, compra alguma coisa, pergunta por um lugar para visitar, conversa com quem mora ali. E, sem perceber, vai levando um pouco da cidade junto.

Domingo chegou cedo demais

No domingo, nós ainda tínhamos vontade de ficar. Mas nossa viagem precisava terminar e deixamos Três Pontas no início da tarde, levando a impressão de que havíamos conhecido muito e, ao mesmo tempo, muito pouco.

Foi só na hora de partir que percebemos quantas coisas ainda haviam ficado pelo caminho. Eu queria ter visitado com mais calma o Castelinho, onde a programação havia reunido gastronomia, cultura, moda e negócios. Também gostaria de ter degustado o café colonial, o vinho premiado, gostaria de ter participado do Sarau na Casa da Cultura.

Ficou faltando tempo para conhecer melhor outros espaços que o Festival ocupou. No sábado, por exemplo, havia a programação infantil na Praça da Aparecida, com o Coral Infantil Trenzinho Caipira, atividades musicais e oficina de instrumentos feitos com materiais recicláveis. No domingo, antes de nossa partida, ainda estava prevista a apresentação da Orquestra Oswaldo Tiso, na Praça da Fonte.

Festival contou com vários momentos de lazer e aprendizagem dedicados às crianças e adolescentes (Crédito: Vanusa Campos – Festival Música do Mundo)

Ficou faltando uma caminhada mais demorada pelas ruas. Ficou faltando sentar em mais algum lugar, conversar sem pressa, descobrir outros cantos da cidade. Ficou faltando, principalmente, aquele segundo dia de quem já não é exatamente turista, porque começa a reconhecer os caminhos. Talvez seja justamente essa a sensação que uma primeira visita bem vivida deixa: a certeza de que ainda existe muito para descobrir.

Partimos encantadas com a organização do Festival Música do Mundo, com a acolhida e com a maneira como Três Pontas conseguiu transformar sua própria história em uma experiência para quem chega.

Eu fui à cidade pela música, pelos artistas consagrados. Saí também com a memória das ruas, dos livros, dos bares, do cemitério, das pessoas e daquele pôr do sol atrás do palco.

E com uma certeza simples: ainda há muito de Três Pontas para conhecer, afinal, como diz o próprio nome desta edição, A Travessia Continua. E, para quem viveu o Festival Música do Mundo de perto, talvez a próxima travessia comece justamente com a vontade de voltar.

Obrigada, Festival Música do Mundo! Obrigada Três Pontas! Vocês são incríveis! Até breve!


Eu, por muitos de nós que fomos.

Público vibrante durante shows principais do Festival Música do Mundo 2026 – A Travessia Continua (Crédito: Vanusa Campos – Festival Música do Mundo)

O Festival Música do Mundo – A Travessia Continua, foi realizado de 12 a 16 de agosto, em Três Pontas (MG), via Lei de Incentivo à Cultura, com patrocínio da Laranjinha Itaú e EPR Vias do Café, apoio da Tecnotêxtil, Santa Safra, ACTA, Comtur, Prefeitura de Três Pontas, ACAITP, ACAITP Mulher, Conecta, Lagotela, Construtúnel e Sesc MG, com realização da Marolo, Gabinete Produções e Ministério da Cultura.


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