Um grito que pede vida: Três Pontas se une pelo fim da violência contra a mulher
Idealizado pela advogada Eliana Braga, o Grito de Mulher Pela Vida reuniu informação, acolhimento, serviços e solidariedade na Praça da Fonte
Há momentos em que falar não basta. É preciso levantar a voz, estender a mão e lembrar, com toda a força, que ninguém deve caminhar sozinho. Foi com esse sentimento que nasceu o Grito de Mulher Pela Vida, mobilização realizada nesta terça-feira (11), na Praça da Fonte, no Centro de Três Pontas, em defesa das mulheres e contra o feminicídio e todas as formas de violência.
Pela manhã e à tarde, a Praça ganhou um significado especial. No lugar onde normalmente as pessoas passam apressadas, os trespontanos e até visitantes fizeram uma pausa e acompanharam a movimentação de voluntários que literalmente vestiram a camisa da causa e exibiram com determinação o X vermelho na mão. Informação, conversa, acolhimento, orientação com profissionais – incluindo advogadas e psicólogas, defesa pessoal, serviços de saúde, blitz educativa, e também atividades culturais, dinâmicas de livre participação, ações simbólicas compuseram o evento.
Mas, talvez, o que mais tenha tocado quem passou pelo local tenha sido a sensação de que ali havia algo maior do que uma programação cuidadosamente elaborada. Havia pessoas dispostas a ouvir outras pessoas.




Grito de Mulher Pela Vida: mobilização realizada nesta terça-feira (11), na Praça da Fonte, no Centro de Três Pontas, contou com diversas ações que propagaram informação contra o feminicídio e todas as formas de violência contra a mulher
Informação também abraça
Para a advogada e idealizadora do Grito de Mulher Pela Vida, Dra. Eliana Braga, falar sobre violência contra a mulher é também oferecer uma possibilidade de proteção.
Ela explica que o evento nasceu justamente da necessidade de não permanecer em silêncio diante de uma realidade cruel. “É um grito de socorro porque nós mulheres estamos morrendo pelo simples fato de sermos mulheres e a gente não tem que ver, ouvir e sentir isso calado. Hoje estamos aqui por uma causa que precisa da participação de todos. Estamos aqui para dizer que a violência contra a mulher não pode ser naturalizada. Nossa proposta é levar informação para perto das pessoas e mostrar que existem caminhos para quem está vivendo uma situação de violência. Se a gente fala baixo, não somos ouvidas, então vamos gritar que nenhuma mulher está sozinha.”

Ao lado da Dra. Eliana – que atua na defesa dos direitos humanos e das causas sociais no município, e que já presidiu a Comissão da Mulher Advogada da 55ª Subseção da OAB/MG – cidadãos, empresas e instituições, forças de segurança, Prefeitura, Câmara Municipal abraçaram a iniciativa. O resultado foi uma ação construída a muitas mãos para promover a reflexão sobre a violência de gênero, fortalecer a rede de proteção às mulheres, incentivar a participação da sociedade no combate a todas as formas de agressão e discriminação, enfim, para gritar muito para que o feminicídio zero deixe de ser apenas um desejo e se transforme em um compromisso coletivo, permanente e inegociável. Um grito pela vida, pela dignidade, pelo respeito e pelo direito de toda mulher viver livre da violência.
Banco Vermelho
Em meio às atividades, compondo o cenário do Grito de Mulher Pela Vida, um elemento chamou especialmente a atenção: um banco todo vermelho, símbolo de um movimento global que começou na Itália em 2016 e representa a luta contra a violência de gênero e o combate ao feminicídio.
Ele esteve ali, parado, silencioso, mas carregou uma mensagem poderosa. O banco lembra as mulheres que perderam suas vidas e, ao mesmo tempo, convida a pensar nas que ainda podem ser protegidas. “Sente e reflita. Levante e aja”.
No Brasil, a iniciativa Banco Vermelho foi transformada na Lei 14.942 de 2024. O objetivo é incentivar ações de conscientização em lugares públicos e projetos no âmbito do Agosto Lilás, mês destinado à conscientização para o fim da violência contra a mulher.

“Estamos todas juntas”
A empresária Patrícia de Brito acredita que mobilizações como o Grito de Mulher Pela Vida são importantes para manter o tema da violência contra a mulher presente no cotidiano da sociedade. “Eventos assim devem ser realizados sempre porque as mulheres são muito maltratadas todos os dias. Então, precisamos dizer não ao feminicídio todos os dias e combater todas as formas de violência. Estamos todas juntas”, afirma.
Para ela, o enfrentamento ao feminicídio começa pela atenção aos sinais e às diferentes formas de violência que podem fazer parte da vida de uma mulher. Patrícia chama a atenção para uma realidade que nem sempre é percebida por quem está de fora: muitas situações de violência acontecem justamente dentro de casa, no espaço que deveria representar proteção, respeito e acolhimento. “A violência começa em casa, na família. A mulher suporta coisas do marido que ninguém imagina. Além dos serviços diários, tem que trabalhar e ainda suportar as exigências dos homens”, analisa.

Uma realidade que precisa ser vista
A fala de Patrícia lança luz sobre uma realidade que, muitas vezes, permanece escondida atrás das portas de casa. Por trás delas, existe uma rotina de silêncios, sobrecarga e sofrimento que nem sempre chega ao conhecimento da sociedade. São mulheres que, mesmo enfrentando situações difíceis, continuam cuidando da casa, dos filhos, trabalhando e tentando seguir em frente.
Dar visibilidade a essas histórias é também uma forma de romper o silêncio e lembrar que nenhuma mulher deve ser obrigada a suportar a violência em nome da família, do casamento ou de qualquer outra circunstância. Quando a sociedade se dispõe a ouvir, acolher e agir, o grito de uma mulher deixa de ser solitário e passa a encontrar muitas outras vozes dispostas a dizer: basta.
Alerta: informação e orientação precisam chegar mais cedo
A conselheira Tutelar de Três Pontas, Cristina Helena Silva (Tininha) traz outro olhar importante para essa conversa: é preciso compreender que a violência física e a violência emocional não atingem apenas mulheres adultas e não acontecem somente dentro de relacionamentos consolidados.
No trabalho como conselheira, ela se depara também com meninas muito jovens que já vivenciam situações de violência em seus relacionamentos. “Estamos lidando com meninas de 12, 13 anos já sendo agredidas pelos namorados que juram a elas eterno amor: agrediu porque estava conversando com um colega, foi sem querer, nunca mais vai acontecer…”
É justamente por isso, explica Tininha, que informação e orientação precisam chegar cedo. “A violência contra a mulher, o feminicídio é um tema preocupante. Os números crescem diariamente; é violência do esposo com a companheira, do pai com a filha, dos namorados com namoradas. Esse evento é de extrema importância para que todos conheçam os direitos e saibam que existe uma rede preparada para acolher e encaminhar quem procura ajuda.”
A conselheira Tutelar continua: “queremos mobilizar as pessoas, mostrar que fazemos encaminhamentos, que tem a Casa da Família, o Cras, Creas, psicólogos. A gente ouve, a gente aconselha, tem uma rede de apoio, e não precisa ter vergonha de procurar esta rede.”
Finalizado, Tininha faz um convite carinhoso à mulher que talvez ainda esteja com medo de dar o primeiro passo: “se ame, se coloque em primeiro lugar, tenha força, estamos aqui para dar esse apoio.”

Um rosto que decidiu contar uma história
Algumas mensagens são ditas com palavras. Outras podem ser percebidas em um olhar. A maquiadora Jéssica Oliveira escolheu contar uma história usando o próprio rosto.
Acostumada a fazer maquiagens que realçam a beleza e ajudam mulheres a viver momentos felizes, ela decidiu, ontem (11), utilizar seu talento para provocar uma reflexão. Jéssica fez uma automaquiagem artística reproduzindo marcas de violência física em seu rosto.
“Estou acostumada a fazer maquiagens que realçam a beleza de cada pessoa, para que elas vivam momentos alegres. E hoje, além de vestir a camisa do Grito de Mulher Pela Vida, trago em meu rosto as marcas da violência física para conscientizar.”

A imagem é forte porque não precisa de muitas explicações. “Que a mulher olhe para mim e veja o impacto disso na vida dela, para que não permita o relacionamento abusivo, para que não se submeta a nenhum tipo de violência”, motiva a maquiadora.
E Jéssica deixa uma frase que resume a responsabilidade de todos: “não podemos nos calar. Temos que ajudar a mulher que precisa”.
No decorrer do dia, ela pintou outras marcas em outros rostos que defendem o feminicídio zero.
Um chamado que também precisa chegar aos homens
O radialista Francisco Barros, enquanto fazia a cobertura jornalística da mobilização na praça, observava detalhes e destacou que essa luta não pode ser colocada apenas sobre os ombros das mulheres. “O evento é superimportante não só para conscientizar a mulher, mas conscientizar principalmente os homens”, analisa. Para ele, a presença masculina precisa crescer em ações como essa liderada pela advogada, Dra. Eliana Braga.

“Mais e mais homens deveriam participar de eventos como esse porque é realmente preocupante. Todo dia a gente está vendo nas mídias casos de feminicídio, de violência contra a mulher, pessoas que não aceitam o término do relacionamento e começam a atacar crianças, a esposa. É realmente terrível.”
Francisco acredita que o Grito de Mulher Pela Vida pode ser o começo de uma mobilização ainda maior. “Este tipo de evento tinha que acontecer mais vezes. É o primeiro passo. Dra. Eliana está de parabéns por ter tido essa iniciativa.”
O jornalista também chama a atenção para o papel da imprensa. Segundo ele, é importante divulgar não apenas os casos de violência, mas também as iniciativas que trabalham para impedir que novos casos aconteçam.
Porque nenhuma mulher precisa passar por isso
Ao longo do dia, entre uma atividade e outra, o Grito de Mulher Pela Vida cumpriu uma missão simples e, ao mesmo tempo, imensa: aproximar pessoas de informações que podem salvar vidas. A iniciativa mostrou onde procurar ajuda, apresentou profissionais, divulgou a rede de proteção e lembrou que pedir apoio não é sinal de fraqueza.
É justamente nesse ponto que a Dra. Eliana retoma a essência de tudo o que foi preparado para esse dia especial. “É este o objetivo: espalhar informações, atender, encaminhar para que essa mulher possa ter uma medida protetiva, um acompanhamento jurídico”, reforçou a advogada.
Há, ainda, uma mensagem que ultrapassa a praça e pode chegar a qualquer pessoa, em qualquer dia e lugar: “a não violência é um direito da mulher, do homem também, é claro, direito de companheirismo, de parceria. Então, antes de terminar, a idealizadora deixa aquele que talvez seja o abraço mais importante de todo o evento: “por menor que seja essa violência, nenhuma mulher precisa passar por isso e ela não está sozinha.”

Nesta terça-feira, a Praça da Fonte recebeu um grito. Um grito de socorro, de vida, coragem, cuidado e esperança. Um grito para que mulheres sejam ouvidas antes que suas histórias terminem em silêncio.
Agora que o dia acabou e a praça voltou à sua rotina, fica a esperança de que alguma mulher tenha levado consigo a certeza de que existe uma mão estendida, uma porta aberta e uma rede pronta para acolhê-la. Nenhuma mulher está sozinha.
E que os homens também levem consigo a certeza de que o enfrentamento à violência contra a mulher é responsabilidade de todos. Que possam ser aliados, romper o silêncio, questionar comportamentos violentos e ensinar, dentro de suas casas e onde estiverem, que respeito não é favor, é princípio – porque construir uma sociedade onde nenhuma mulher tenha medo de viver, escolher e ser quem é também é um compromisso que os homens precisam assumir.


Marita Duarte, uma das voluntárias no Grito de Mulher Pela Vida vestiu a camisa, pintou o rosto e divulgou o X vermelho na mão. Na foto seguinte, um trespontano que aderiu ao movimento ao passar pela blitz educativa que contou com a participação da Polícia Militar. Ele permitiu pintar o X vermelho em sua mão, em apoio à luta contra o feminicídio
Precisa de ajuda? Você não está sozinha. Ligue 190 -180 – 197 – 192. A ligação é gratuita.
Sintonize mais: Veja aqui mais algumas fotos do início do evento.
