Carta ao Papai Noel

Sigo acreditando no Bom Velhinho e no poder da família, da memória e do amor que o Natal ensina a embrulhar com cuidado

Ainda hoje, com meus cinquenta e poucos anos, confesso sem pudor: eu acredito no Papai Noel. Acredito porque ainda me encanto com as luzes que piscam como estrelas ao alcance das mãos, com a magia silenciosa que invade as casas e com o cheiro de Natal que insiste em acordar lembranças boas. De acordo com o meu coração, o Natal nunca deixou de ser esse lugar onde a esperança encontra morada.

Escrevo esta carta, Papai Noel, como quem abre uma gaveta antiga cheia de memórias. Segundo a minha lembrança mais afetiva, a árvore e o presépio da nossa casa sempre foram montados com extremo cuidado pela minha mãe (e Graças a Deus ainda são): cada detalhe no lugar certo, cada figura carregando um significado. Era ali que eu aprendia, mesmo sem perceber, que o Natal também se constrói nos gestos simples; é o que explica a saudade que hoje mora bonita dentro de mim.

Carta ao Papai Noel
Segundo a minha lembrança mais afetiva, a árvore e o Presépio da nossa casa sempre foram montados com extremo cuidado pela minha mãe (e Graças a Deus ainda são)…

Hoje entendo que um ou vinte presentes são a mesma coisa. O preço também não importa. Importa o carinho, a atenção, o amor entregue junto no embrulho. Importa o acreditar...

Agora reconheço, com a serenidade do tempo, que fui uma criança extremamente feliz. Meus pais, meus avós, meus tios alimentaram minha imaginação com tanto zelo que acreditei fielmente na existência física do Bom Velhinho e das suas renas voadoras até por volta dos meus 13 anos. Meus familiares se desdobravam para atender, à risca, cada pedido das longas cartinhas que eu ditava e que, posteriormente, já maiorzinha, escrevia com capricho. Segundo a memória que não falha, cada presente era prova concreta de um amor que trabalhava em silêncio.

Entre tantos, há dois natais que nunca me deixaram. Um deles foi em casa. Lembro-me de abrir a porta do quarto e não saber por onde começar a desembrulhar tantos presentes. Naquele dia, ganhei um liquidificador que batia de verdade; tinha a base e a tampa vermelhas; um body – na época, os tão desejados collants – de cor vinho, com babadinho branco, ganhei bonecas, uma bola, sapato e tantas outras coisas que eu precisaria de tempo para listar. Me lembro de cada uma delas, e a emoção ainda aquece o peito ao recordar.

Outro Natal mora na casa dos meus avós. Nele, ganhei uma sombrinha. Eu amei o presente. Era delicada, linda, do jeitinho que eu gostava. Mas, sem perceber, minha avó deixou escapar algo como: “se a Mamãe Noel te der…”. Naquele tempo, a figura materna do casal mágico ainda não era comum, e ali nasceu uma desconfiança. Chorei muito. Não por ter ganhado “apenas um presente”, afinal, minha sombrinha era encantadora, mas porque senti minha ilusão ameaçada. Mesmo assim, eu não deixei que ela partisse. Escolhi acreditar, diz neste instante a criança que ainda vive aqui em mim.

Natais de muitos jeitos, todos com sentido

Tive natais com muito, muito mesmo, alguns com pouco e nenhum com nada: uma privilegiada! Todos esses natais foram marcantes, cada um à sua maneira, e hoje conheço a certeza de que a infância se constrói mais pelo afeto do que pela quantidade. Hoje entendo que um ou vinte presentes são a mesma coisa. O preço também não importa. Importa o carinho, a atenção, o amor entregue junto no embrulho. Importa o acreditar.

É esse amor de família, Papai Noel, que eu te peço para entregar a todas as crianças do mundo. Que esse cuidado chegue como proteção, como abraço respeitoso, como presença, especialmente em tempos em que tantas infâncias precisam ser preservadas com ainda mais zelo. A súplica que faço em silêncio, é que o Natal seja refúgio e nunca ausência.

E, por fim, peço algo simples e imenso: que você nunca deixe o acreditar morrer: nem nas crianças, nem nos adultos. Porque quando a gente acredita, o mundo fica mais gentil, o coração mais disponível e a vida encontra novos motivos para sorrir. Que essa chama permaneça acesa, ano após ano, iluminando caminhos, histórias e futuros.

Feliz Natal, Papai Noel!
Feliz Natal a cada um!
Feliz Natal a todos!

Com carinho, Arlene Brito.

É esse amor de família, Papai Noel, que eu te peço para entregar a todas as crianças do mundo. Que esse cuidado chegue como proteção, como abraço respeitoso, como presença, especialmente em tempos em que tantas infâncias precisam ser preservadas com ainda mais zelo. A súplica que faço em silêncio, é que o Natal seja refúgio e nunca ausência (Arlene Brito)