OLHAR DE MULHER / Do interior de Minas ao mar aberto: aos 55 anos, Maria Rosa transforma cada braçada em superação
Trespontana encontra nas águas abertas liberdade, disciplina e força emocional para a vida
O mar não faz parte da paisagem de Três Pontas, no Sul de Minas. Ainda assim, foi nele que Maria Rosa Guimarães Miari, 55 anos, encontrou um novo horizonte e uma das maiores motivações da própria vida. Chefe do Cartório Eleitoral do município, casada e mãe de duas filhas, ela trocou a previsibilidade das raias da piscina pela imensidão das águas abertas. Um cenário sem bordas, onde não há paredes para tocar, onde o vento muda o ritmo, a corrente impõe respeito e cada braçada exige coragem.

Em sua trajetória, o esporte sempre esteve presente. A natação começou no Trespontano Olímpico Clube (TOC), quase como quem busca apenas saúde e movimento. Ali construiu amizades, criou rotina, recebeu incentivo da professora “Tia” Renata e passou a competir, por exemplo, em etapas do Campeonato Mineiro, disputadas em Três Pontas e em cidades da região. Vieram medalhas, títulos e a alegria silenciosa de perceber a própria evolução. Mas, mais do que pódios, veio a certeza de que o corpo pode ir além quando a mente decide continuar.
Inquieta por natureza, dinâmica e com “queda acentuada” para novos desafios, Maria Rosa deu uma pausa nas braçadas e mergulhou no ciclismo. A bicicleta tornou-se paixão, muitas vezes combinada com corrida. O esporte, independentemente da modalidade, faz parte da identidade desta mulher trespontana que, explica, “praticar exercícios físicos é uma forma de existir”. Em todas as fases, a ligação com a água nunca desapareceu. A natação permaneceu ali, aguardando apenas o momento certo para voltar ao espaço diferenciado em sua rotina.
Mulher ao mar
Há cerca de quatro anos, durante viagens ao litoral paulista, o mar passou a chamá-la de maneira diferente. Não era mais apenas paisagem bonita para contemplar. Era convite. Em Trindade, no Rio de Janeiro, Maria Rosa fez a primeira experiência em águas abertas. Lembra da sensação como um misto de destemor e encantamento. “Achei muito bom”, resume. A simplicidade da frase, com toda certeza, não traduz a intensidade daquele momento. Prova é que, desde então, touca, óculos especiais e até boia de sinalização passaram a ocupar lugar fixo na bagagem toda vez que o caminho levava a alguma região costeira.
Certo dia, ela decidiu se inscrever em um campeonato de natação fora das piscinas. A competição aconteceu em Capitólio, na Represa de Furnas. Depois, foi mais longe, para a Praia da Cocanha, em Caraguatatuba (SP). O objetivo inicial era simples: concluir. Cruzar a linha de chegada já significava vitória íntima. O tempo no relógio importava menos do que o diálogo interno travado a cada metro percorrido. Era sobre provar a si mesma que conseguia.
Veio, então, uma fase do Circuito Mares, em Ilhabela (SP), no ano passado, quando a nadadora pela primeira vez decidiu conferir o resultado antes de voltar para o hotel. Havia conquistado o terceiro lugar. A surpresa trouxe novo estímulo. No início de fevereiro, Maria Rosa repetiu o feito na etapa de abertura Circuito Mares 2026, em Caraguatatuba. Agora se prepara para competir nos dias 11 e 12 de abril, na Praia do Toque Toque Pequeno, em São Sebastião (SP), onde atletas de várias idades participarão do maior circuito de esportes de praia do Brasil.

Presente da natureza
Viver em Três Pontas significa estar a cerca de seis horas do mar de “Caragua”, um dos mais frequentados pela nadadora sul-mineira. Para estar lá, é preciso planejamento e disposição. E também coragem para encarar o imprevisível. O oceano impõe variáveis: ondas que mudam de direção, correntes que puxam o corpo, água fria, água turva, água límpida, vida marinha ao redor. Maria Rosa já avistou tartarugas, nadou ao lado de golfinhos, cruzou com arraias e peixes que saltavam à frente. “É surpreendente, é mágico. Para muitos ameaças, mas para mim presentes da natureza, um privilégio”, diz… E os olhos brilham ao falar, entusiasmada.
Enquanto avança mar adentro, revela a trespontana, os pensamentos também mergulham fundo. Recorda obstáculos superados, responsabilidades assumidas, revisita a própria trajetória de vida. Ver nadadores ultrapassando ou ficando para trás funciona como metáfora silenciosa de resistência. “Eu aguento. Eu consigo”, repete mentalmente. Maria Rosa garante que não sente medo, mas respeito porque, reconhece, “no mar não há arrogância possível. Há humildade, há determinação e enfrentar a imprevisibilidade fortalece”.

Equilíbrio emocional e a companhia dos Peixinhos da Cocanha
No cotidiano, o aspecto emocional precisa ocupar papel central. No caso de Maria Rosa, também quando ela se lança em águas abertas, mesmo que por pura diversão. Recentemente, ela teve seu poder de equilíbrio bem testado. No sábado de carnaval, nadava cerca de seis quilômetros até uma ilha de Caraguatatuba. Em determinado momento, percebeu que havia saído da rota. Nenhuma voz. Apenas o som da própria respiração. “Estou sozinha aqui”, pensou, e escolheu confiar: na vinda do apoio, na própria capacidade de manter a calma. Minutos depois, foi orientada de volta ao percurso. Nadou, agrupou-se, concluiu, saiu da água ainda mais forte.

O suporte veio da equipe Peixinhos da Cocanha, grupo que une esporte e ação social. Maria Rosa faz parte da equipe. “É um pessoal muito responsável, que me acolheu de imediato. São parceiros da natação no mar, parceiros de provas diferenciados. Eles incentivam, vão junto, mostram que é possível. A sensação de pertencimento fortalece tanto quanto o treino. Além disso, sei que estou nadando em segurança”, registra em tom de agradecimento.
Para a trespontana, a piscina continua sendo base técnica. É onde aperfeiçoa respiração, ritmo e preparo físico. Mas é no mar que encontra algo mais profundo. “É terapia”, define, “porque ali não se trata apenas de desempenho. Trata-se de encontro interior”.
Avance, motiva Maria Rosa
A rotina de Maria Rosa, em sua terra natal, Três Pontas – cidade da “fé, da música e do café” – é marcada por responsabilidade e precisão. Entre prazos, decisões e compromissos, ela mantém os pés firmes no chão. Ainda assim, saber que haverá uma próxima travessia funciona como farol em meio às exigências do dia a dia. A família, que no início sentiu receio diante da imensidão do mar, hoje é porto seguro. O orgulho das filhas, do marido, da mãe tornou-se combustível discreto, daqueles que não fazem alarde, mas sustentam cada braçada.


Maria Rosa – a apaixonada por água, no pódio do Circuito Mares em Caraguatatuba e Maria Rosa – a profissional exemplar em seu local de trabalho em Três Pontas. Uma única mulher, muitos desafios, a mesma força para vencer. Que sua história inspire outras a acreditarem no próprio potencial
Para uma mulher do interior de Minas Gerais, 55 anos, nadar em águas abertas é mais do que prática esportiva. É afirmação de autonomia. É prova de que a idade não limita sonhos. É demonstração de que coragem não faz barulho, ela se constrói, braçada após braçada.
Em uma cidade sem praia, Maria Rosa prova que o horizonte não depende da geografia. Depende da decisão de avançar, mesmo quando a profundidade assusta. E, a cada mergulho, ela reafirma algo essencial: “nunca é tarde para atravessar os próprios medos, ultrapassar outros obstáculos e nadar em direção à liberdade. Sonhar é o primeiro passo. Acreditar sustenta. Mas é a ação firme que transforma o sonho em realidade.”


É com histórias assim que o SintonizeAqui inaugura a editoria Olhar de Mulher, um espaço dedicado a revelar trajetórias femininas que inspiram, desafiam limites e mostram a força presente no cotidiano.
A experiência de Maria Rosa abre essa série lembrando que coragem não tem idade e que novos horizontes podem surgir quando alguém decide acreditar em si mesma e seguir adiante, mesmo quando o caminho parece improvável.
Nas próximas semanas, outras mulheres também terão suas histórias contadas aqui. Mulheres reais, de diferentes caminhos e experiências, mas que têm algo em comum: a capacidade de transformar desafios em movimento, sonhos em atitude e inspiração para quem vem depois.
Você conhece alguma mulher de Três Pontas ou da região cuja história merece ser contada?
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