Janeiro sem pressa: quando descansar também é um plano

Entre a pressão por recomeços e a necessidade de pausa, psicóloga lembra que descansar também é um ato de cuidado

Janeiro costuma chegar carregado de expectativas. É o mês das listas, das promessas, dos “agora vai”. A cobrança por produtividade aparece cedo, mesmo quando o corpo e a mente ainda estão tentando se reorganizar após um ano inteiro de desafios, perdas, conquistas e excessos.

Para muitas pessoas, mulheres em especial, esse início de ano vem acompanhado de um sentimento silencioso: a culpa por não “render” como o discurso motivacional espera. Culpa por ainda estar cansada, por não ter começado a dieta, o exercício, o curso, o projeto. Culpa por precisar de mais tempo.

“O sentimento de culpa costuma surgir a partir do excesso de cobrança que colocamos em nós mesmas. Vivemos em uma sociedade em que a mulher é constantemente exigida a estar mais magra, mais definida e a se encaixar em padrões muitas vezes inalcançáveis. Essas exigências não dizem respeito apenas ao corpo e à estética, mas também aos papéis sociais que assumimos como mulheres, como o de ser uma boa mãe, uma boa esposa, uma boa namorada e uma boa filha. Por trás da palavra ‘boa’, existem múltiplas expectativas que, muitas vezes, impedem cada mulher de ser quem realmente é.

Quando tentamos corresponder continuamente às exigências impostas, seja pela sociedade ou por pessoas próximas, é comum nos sentirmos pressionadas e culpadas. Além disso, comentários, propagandas e discursos reforçam estereótipos direcionados às mulheres, contribuindo para uma sensação constante de insatisfação ou de que é preciso estar sempre correndo atrás de algo. Esse movimento gera desgaste emocional, alimenta a não aceitação e intensifica sentimentos de culpa e autocobrança”, observa a psicóloga Nathália Lopes.

Produtividade: Janeiro sem pressa: quando descansar também é um plano
Nossa entrevistada, a psicóloga Nathália Lopes, analisa que cada pessoa constrói a própria história, e o seu tempo precisa ter significado para si, não para expectativas externas

Mas e se janeiro não fosse, necessariamente, um ponto de largada acelerado? Será que é saudável esperar tanta produtividade logo no começo do ano?

A resposta é não, conforme explica Nathália. De acordo com a profissional, o excesso de metas e de atividades pode levar ao adoecimento emocional, fazendo com que as pessoas se sintam cansadas e sobrecarregadas. Ela explica que é importante refletir sobre o que realmente é possível fazer e começar com pequenas mudanças, já que, muitas vezes, dar conta de uma única coisa já é suficiente.

A psicóloga trespontana e outros especialistas em saúde emocional têm reforçado algo simples, porém muitas vezes ignorado: descansar não é falhar. O descanso não é ausência de força, mas parte essencial do processo de recuperação física e emocional. Ele não interrompe o caminho, ele o sustenta.

“O descanso é o momento em que recuperamos nossas forças e pausamos para elaborar tudo o que vivemos e sentimos. Ele desempenha um papel fundamental na vida de todas as pessoas, pois é o que traz ânimo e possibilita maior bem-estar emocional e foco. Mais do que um meio para aumentar a produtividade, o descanso é uma necessidade humana básica, essencial para a restauração das forças físicas e emocionais. Depois de períodos intensos, como o fim de ano, o organismo precisa de pausa para se reorganizar. Emoções também precisam de espaço para serem compreendidas. Ignorar isso, em nome de uma produtividade forçada, pode gerar ainda mais exaustão, ansiedade e frustração”, alerta.

“Alguns sinais que merecem atenção estão relacionados a sentimentos de angústia, excesso de cobrança, alterações no sono, como dormir demais ou ter dificuldade para dormir, e níveis elevados de ansiedade. Esses sinais emocionais indicam que algo não está bem e não devem ser ignorados”, completa a psicóloga.

Janeiro pode, e talvez deva, ser um mês de acolhimento. Um tempo para olhar para dentro, ajustar expectativas, respeitar limites e entender que cada pessoa tem seu próprio ritmo. Nem toda meta nasce com euforia. Algumas nascem no silêncio, no cuidado e na escuta do que o corpo e a mente estão pedindo.

Nathália Lopes analisa que respeitar o próprio ritmo envolve aceitar a própria história e evitar comparações. “Cada pessoa tem uma trajetória única e, por isso, não faz sentido falar em atraso quando se trata de um caminho que é exclusivamente seu”.

Para as mulheres, que historicamente carregam múltiplas responsabilidades, essa reflexão é ainda mais necessária. Produzir, cuidar, resolver, organizar… tudo isso pesa. E permitir-se começar o ano com mais gentileza pode ser o primeiro passo para um caminho mais sustentável ao longo dos meses.

“Um dos primeiros passos é aprender a se respeitar e a olhar para si mesma com mais gentileza e cuidado. Investir em atividades que façam sentido e fortaleçam o autocuidado, como uma caminhada ou momentos ao lado de pessoas que reconhecem seu valor e importância, contribui para um início de ano mais acolhedor e emocionalmente saudável”, destaca.

Janeiro não precisa ser sobre virar outra pessoa. Pode ser apenas sobre continuar, com mais respeito por si mesma.

“É importante que cada pessoa reserve um tempo para olhar para a própria trajetória, reconhecendo tudo o que já viveu, enfrentou e conquistou ao longo da vida. Estar onde se está hoje é resultado de um caminho construído com esforço, escolhas e enfrentamentos.

Viver o momento presente também é fundamental, pois é nele que as possibilidades do futuro começam a ser construídas. Cada dia é diferente do outro, e respeitar esse ritmo faz parte do cuidado emocional.

O descanso é uma necessidade, independentemente do mês do ano. Não importa se é janeiro, março ou setembro. Cada pessoa constrói a própria história, e o seu tempo precisa ter significado para si, não para expectativas externas.

Por isso, as mensagens comuns do início do ano, que incentivam mudanças imediatas ou metas aceleradas, não precisam ser seguidas se não fizerem sentido. Se houver a sensação de que o corpo e a mente pedem pausa logo em janeiro, isso não é um problema. Descansar também é uma forma legítima de cuidado e de escolha pessoal”, conclui Nathália.  

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Produtividade – Nem toda meta começa com força: janeiro também é mês de acolhimento emocional

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